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O papa Júlio II encomendou a Rafael as pinturas da Stanza della Signatura. Um dos
murais representa a Escola de Atenas, pintura icónica de figuras da antiguidade, com
Platão no centro a apontar o dedo para o céu (mundo das ideias) e Aristóteles para a
terra (as ciências / física), rodeados pelos sábios da antiguidade.  Ao
lado, Michelangelo pintou a capela Sistina, conjunto monumental de figuras da Igreja
com Deus no centro quase a tocar a mão de Adão (A Criação). Estamos no Vaticano,
em Roma, o centro do centro da cultura clássica.
É um lugar-comum dizer-se que a base cultural da Europa é greco-romana e judaico-
cristã, mas será apenas assim?
A primeira biblioteca (1) é do tempo de Assurbanípal, na Mesopotâmia, em tabuínhas
de barro cozido, com escrita cuneiforme. Foi desta civilização que herdamos a escrita,
o sistema numérico sexagesimal, dos graus dos ângulos, das horas, dos minutos e
dos segundos. (2) O seu livro famoso mais antigo, Gilgamesh, é uma epopeia que nos
conta a história de um dilúvio enorme na antiguidade, que durou 6 dias e sete noites;
destruiu tudo menos os eleitos, que se salvaram numa arca, que os deuses deram
instruções para construir. Isto na terra da torre de Babel e do jardim do Éden.
Moisés estava no Egipto no tempo de Amenofis IV, quando este faraó renegou os
deuses tradicionais  e elevou Aton (o disco solar) a Deus único, mudando mesmo o
seu nome para Akhenaton, e mudando a capital para Amarna, sendo portanto a
primeira religião monoteísta.
No museu Egípcio de Berlim, onde está o famoso busto de Nefertiti, (3) encontra-se
exposto ao seu lado o o papiro Westcar, do tempo do faraó Quéops (2589 – 2566 AC),
que narra a história de uma profecia divina, em que uma mulher estava grávida do
futuro rei, e em que os deuses assistiriam ao seu nascimento, portanto há mais de
4500 anos.
A civilização egípcia deixou vestígios  por todo o mundo antigo, impregnando-o com
os seus deuses, particularmente Ísis, e deixando rasto até aos nossos dias, como por
exemplo no Bom Jesus em Braga.
Se esquecermos as leis e a língua de Roma, a cultura é essencialmente grega na
origem.
Os gregos foram de facto os grandes  pensadores da civilização ocidental.
Pitágoras, nascido em Samos (4), teve contacto com o Egito e a Mesopotâmia, criou
uma escola que acreditava que o mundo era regido pelos números, que a música tinha
uma natureza matemática, e os corpos celestes se moviam com proporções
harmónicas em esferas, produzindo uma música no seu movimento ( 5). Inventor das
palavras filosofia e cosmo, acreditava na imortalidade da alma e na reincarnação e foi
uma influência maior sobre os filósofos posteriores, nomeadamente Platão, o grande
pensador da antiguidade, criador do mundo das ideias. Costuma dizer-se que a
filosofia posterior são notas de rodapé à sua obra.
Aristóteles, seu discípulo, foi o sábio do conhecimento enciclopédico, tal a abrangência
das áreas dos seus pensamentos.

Embora seja o Velho Testamento judaico a primeira base religiosa e a doutrina Cristã a
preponderante, Aristóteles influenciou a Europa  durante dois mil anos, incluindo a
Escolástica de S Tomás de Aquino.
Se nos tivessem chegado os escritos de Aristarco e de outros sábios, com a teoria
heliocêntrica entre outras, a história podia ter-se escrito de outro modo.
Mas também a civilização indiana contribuiu para a matemática, com a numeração
decimal, dita árabe, com o conceito de zero e do posicionamento dos algarismos, que
permitiu a simplificação das operações matemáticas e o seu uso generalizado (6).
Mais tarde, no mundo árabe, surge Alkwazime o grande matemático cujo nome ficou
gravado nas palavras Álgebra e Algoritmo.
E como é que todas as obras clássicas chegaram até ao presente?
Pois foi através da civilização islâmica, apesar de ter destruído a biblioteca de
Alexandria e arrasado Bizâncio na sua rápida expansão para o Ocidente.
Os escritos antigos quase se perderam após a queda do Império Romano.
Foram recolhidos primeiro em Alexandria e posteriormente em cidades como
Bagdade, Córdoba e Toledo, na altura todas sob o império do Islão, e traduzidos para
o árabe A partir daí foram traduzidos para o latim e  as línguas europeias.
O papel, invenção chinesa do séc.I, foi trazido para o Ocidente pelos árabes que o
obtiveram numa batalha no séc. VIII, e foi através da Espanha muçulmana que foi
introduzido na Europa.(7)
Salerno , Palermo e particularmente Veneza foram cidades pioneiras na difusão dos
primeiros livros impressos, porque já havia imprensa mecânica (8); anteriormente
eram todos copiados à mão.
Mais tarde surge o Renascimento, que significa literalmente o renascer da cultura
clássica. As pinturas citadas no início são exemplos disso.
Na Idade Moderna o Neoclassissismo é uma corrente da Arquitetura, que surge por
oposição ao Rococó do Barroco, com exemplos em Londres, nos edifícios
monumentais de Washington ou na fachada, com as colunas gregas, do Hospital de S.
António, no Porto, do arquiteto inglês John Carr.
Mesmo Marx dá como exemplo a estrutura social greco-romana para transformar a
sociedade. O significado em grego das palavras  demos (δῆμος) e kratos
(κράτος), praxis (πρᾶξις) e teoria (θεωρία) tem andado em sobressalto.
Até que recentemente Fukuyama declarou o fim da história!
LP’s e CD’s, ou VHS e BETA, ou Fita de gravações e Cassetes, ou Fita Perfurada,
Floppy Disk, Diskete 3.5 e CD’s, estão hoje obsoletos. A velocidade assustadora, e
cada vez maior, a que estas bases de dados de informação se vão tornando ilegíveis é
impressionante.
A cultura, ao contrario do nosso ADN, não é um bem em si, é algo que transmitimos,
mas que se pode perder. É um processo de reciclagem e progressão do passado nas
suas várias matizes, que forja o futuro que herdou de um sem número de culturas
anteriores.

No presente digital e com a Inteligência Artificial a levantar questões inimagináveis,
talvez nos possamos aproximar da pureza dos clássicos, para nos prepararmos para o
futuro próximo e vê-lo em perspectiva, com serenidade, como uma evolução na
continuidade.
A Filosofia pode ser o refúgio daqueles que veem o futuro com apreensão, com a
clássica reflexão sobre o Belo o Bom e a Verdade.
Na segunda parte vamos ver como esta evolução histórica afetou a Medicina e a
Oftalmologia, na próxima Visão dia a dia.

Notas 

1- de Biblion  termo grego para papiro, que deu o nome à cidade fenícia onde
abundava o seu comércio e theke de caixa ou depósito. A cidade Fenícia Bíblos era
um grande centro de comércio de papiro. Os escritos egípcios eram feitos em rolos de
papiro, uma planta do Nilo.

2 – O calendário solar é egípcio e ainda em uso, com 365 dias, aproximadamente
desde o reinado de Djoser, em 2700 A.C., portanto há quase 5000 anos.

3- A mulher de Akhenaton. O famoso faraó Tutankamon, filho deste, governou poucos
anos e muito jovem, aquando da morte do pai os sacerdotes manipularam o jovem
faraó e regressaram ao culto politeísta com a trindade egípcia de Osiris Horus e Ísis,
que lhes interessava.

4- Pitágoras filho de um comerciante  de Tiro na Fenícia, viveu anos no Egito, tendo
sido prisioneiro e levado para a Mesopotâmia. Criou uma escola iniciática, com
transmissão oral das ideias e com regras rigorosas de vida.

 5 – Daí a expressão Esfera Celeste que damos ao céu nocturno. Esfera tipo redoma
de vidro fixa, com as estrelas apostas, e a Terra no centro – Sistema Geocêntrico.
Sistema útil para mapear as estrelas com a projeção do Equador e polos terrestres no
Céu.

6- A numeração romana tornava as operações matemáticas um pesadelo
7-  A primeira fábrica de papel na Europa foi fundada em Játiva (Valência)em Espanha,
no século XI.

8- A imprensa foi inventada por Gutenberg em 1450, um dos primeiros livros
impressos foi a Bíblia cujo nome deriva de Biblos

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