A propósito do campeonato do mundo pensei no tema.
A ideia de que vivemos num universo que é uma ilusão aparece em várias áreas do conhecimento, da filosofia à religião e à ciência, mas cada uma entende “ilusão” de forma diferente. E podíamos mesmo falar dos sonhos e do cinema.
Na filosofia, os idealistas defendem que a realidade é fundamentalmente mental ou baseada na consciência, em vez de material. Platão, na Alegoria da Caverna, descreve as pessoas a confundirem as sombras projetadas nas paredes pela fogueira com a realidade. A mensagem não é que o mundo físico seja falso, mas que a nossa perceção pode ser limitada, porque só vemos essa parte da realidade.
Na tradição Védica, do Hinduísmo, Maia refere-se à ilusão ou aparência do mundo material, que pode ocultar uma realidade espiritual mais profunda.
Na Física Quântica algumas interpretações populares afirmam que a mecânica quântica mostra que a realidade é uma ilusão. No entanto, essa conclusão não é aceite pela física. A teoria descreve o comportamento da matéria e da energia em escalas muito pequenas, mesmo com propriedades exóticas, mas não demonstra que o universo seja irreal.
Na Astronomia a Inflação após o Big Bang e o modelo cosmológico padrão explicam a evolução do Universo observável com base em evidências como a expansão do Universo e a radiação cósmica de fundo. Estes modelos não sugerem que o Universo seja ilusório.
A ideia mais próxima de “o Universo é uma ilusão” que é levada a sério em física teórica é o Princípio Holográfico. No entanto, mesmo essa hipótese não afirma que as estrelas, galáxias ou nós próprios não existimos; apenas sugere que a forma mais fundamental de descrever o Universo pode ser muito diferente da aparência tridimensional que é a nossa experiencia. Ela propõe que toda a informação contida num volume de espaço pode ser descrita na sua superfície, como um holograma. É uma ideia matemática que surgiu do estudo dos buracos negros e da gravidade quântica. Não significa que o Universo seja “falso”, mas que a sua descrição fundamental pode ser diferente da nossa intuição.
A Hipótese da Simulação popularizada pelo filósofo Nick Bostrom, e que tem a simpatia de Elon Musk, sugere que uma civilização suficientemente avançada poderia criar simulações tão detalhadas que os seus habitantes acreditariam estar num universo real. Não há evidências científicas que confirmem esta hipótese.
A teoria do cérebro numa tina Hilary Putnam, que deu origem ao famoso filme Matrix, conta uma história de um mundo real e outro de simulação por computador. É uma hipótese filosófica inspirada em tecnologia, não uma teoria cosmológica confirmada.
Christopher Nolan em Inception, o seu filme de sonhos, num ritmo eletrizante, cria um ambiente onírico que pode induzir alterações do subconsciente que ulteriormente alteram a realidade.
Em resumo, não existe atualmente nenhuma evidência científica de que vivamos num universo ilusório ou numa simulação. Essas ideias permanecem hipóteses filosóficas ou especulativas. A ciência trabalha com teorias que podem ser testadas por observações e experiências, e até agora nenhuma confirmou que a realidade seja uma ilusão.
A realidade que experimentamos é construída pelo cérebro a partir dos nossos sentidos. O que vemos, ouvimos e sentimos é uma representação da realidade, não necessariamente a realidade “em si”.
Aí o oftalmologista pode corrigir os defeitos de visão no sentido ocular, mas não filosófico…
Tudo isto lembrou-me um livrinho amarelo que aparecia na Feira do Livro nos anos 70, na praça General Humberto Delgado, a Praça do Porto, com o Almeida Garrett a vigiar. “A Realidade é Real?” (título original “How Real is Real?”) de Paul Watzlawick. Foca-se em como a comunicação humana constrói aquilo a que chamamos “realidade”. O autor demonstra, através de vários exemplos, como desentendimentos, traduções e perceções moldam versões diferentes do mundo.
E o campeonato do mundo?
A hipótese é que podemos viver num mundo virtual comandado por seres inteligentes com objetivos escondidos.
Resta-nos ser felizes na nossa ignorância e seguir a comunicação, nos amanhãs que de certeza virão, com o novo ciclo que se aproxima (não sem o sofrimento) – Samsara…