63

Imaginemos algo, um espaço infinito.

Se tiver os olhos fechados e os abrir vejo um objeto no espaço. Podemos considerá-lo um ponto, no horizonte. O olhar estabelece uma direção, isto é o eixo visual.

Se imaginarmos para além da frente até onde se vê, para trás até onde se imagina, temos uma linha, levada ao infinito, uma reta.

E se abrirmos os braços podemos imaginar mais uma direção linear. Com retas infinitas definem-se 2 linhas no espaço, início de uma geometria chamada Geometria de Euclides. Mas ainda estamos num plano.

Se pensarmos na direção cabeça pés temos um novo eixo, para cima e para baixo. Agora já estamos no espaço 3D com volume. Em Euclides podemos pensar nos sólidos. O Oftalmologista descreve o Campo de Visão.

A geometria Analítica ou Cartesiana, pois foi criada por Descartes, define o espaço nas 3 direções e dá-lhes coordenadas.

Para Pitágoras os números eram a base de tudo, considerava que a essência das coisas estava nos números. As relações matemáticas apareciam na própria natureza. A música é um exemplo clássico: relações simples entre comprimentos de cordas dos instrumentos musicais produzem relações harmónicas entre sons. (1) A música das esferas celestes era um conceito que derivava desta filosofia. (2) Daí a ideia de que tudo está feito de acordo com os números.

Euclides usou-os para medir o comprimento, as áreas e os volumes. Eles descrevem propriedades de um espaço que é considerado objetivo e independente do observador. A geometria de Euclides não é apenas uma coleção de desenhos, é uma linguagem onde os números descrevem as propriedades das formas. Enquanto a geometria trata das estruturas no espaço, os números fornecem um modo de quantificar essas estruturas. O círculo perfeito é um dos objetos mais fascinantes da matemática. Na geometria de Euclides, um círculo é o conjunto de todos os pontos que estão à mesma distância de um ponto central. Essa distância é o raio. É uma figura ideal, todos os raios são exatamente iguais e a curva não tem qualquer irregularidade.

A grande ideia de Descartes foi unir a álgebra à geometria. Em vez de desenhar apenas figuras, passou a representá-las por números e equações. Um ponto deixa de ser apenas uma posição e passa a ter coordenadas (como xyz). Uma reta é descrita por uma equação. Um círculo também pode ser descrito por uma equação numérica.

Assim, a geometria analítica transforma as formas em expressões matemáticas.

O Sol, a Lua e os planetas parecem discos circulares quando os observamos no céu, porque estamos a ver a projeção de corpos aproximadamente esféricos, tridimensionais, mas não círculos perfeitos. A visão do eclipse total do Sol, em agosto, deu-nos a imagem deste círculo. O eclipse da Lua visto no Porto projetou a imagem da Terra na sua superfície, uma das provas clássicas da sua forma esférica.

Assim, aquilo que começou em Pitágoras como a procura da ordem numérica do mundo acaba, muitos séculos depois, numa questão muito mais profunda: será que o universo é uma realidade que os números descrevem, ou será que a própria estrutura a que chamamos realidade possui uma natureza matemática?

Após inúmeras translações da Terra à volta do Sol surgem os computadores.

Computadores que usam o sistema binário (0-1) para fazerem operações matemáticas em vez do sistema decimal dos nossos dedos das mãos.

Isto permitiu, com um circuito de corrente elétrica que se liga e desliga (on e off), obtermos o zero e o um. Através de circuitos cada vez mais sofisticados, surgiu o cálculo computacional. No início eram quase só operações simples e tabelas de dados.

A Internet ligou os computadores em rede. As grandes bases de dados com placas gráficas com chips muito potentes trouxeram a IA. Curiosamente, um token (palavra) é um vetor (geometria analítica) num espaço de muitas dimensões (geometria não clássica).

Voltando ao nosso mundo real, o que é uma figura geométrica pode tornar-se uma estrutura que um computador consegue representar, calcular e simular matematicamente.

Mais recentemente, a IA que usa as chamadas redes neuronais tem obtido desempenhos que têm escalado exponencialmente.

Mas também tem vindo a criar situações completamente novas e inesperadas.

Há por exemplo situações em que pessoas pedem textos à IA para apresentarem currículo de emprego e as empresas também os avaliam com programas de IA. Está descrito que os sistemas de IA, na escolha, preferem os criados por eles próprios. No limite isso pode levar a que estes sistemas tenham preponderância nas nossas escolhas futuras.

Também há o risco, particularmente no mesmo chatbot (3), de perpetuar um erro ou alucinação e criar o que já foi designado por “blind spot”, ou seja, mancha cega.

Já se especula sobre se há consciência nos chatbots ou se pode algum dia vir a existir.

A Anthropic criou uma experiência em que pediu à sua IA para contar até 5, mas a fazer uma introspeção profunda. A avaliação, agora divulgada, detetou que o processo havia passado por fases em que no sistema apareciam as palavras um, dois, três, quatro e cinco, mas durante o processo, ao analisar os tokens (palavras) não apresentados, apareceram as palavras contagem, meio, caminho, consciência, IA e Claude. No final aparece apenas o número 5 e o ponto final, mas a palavra “feito” estava nos tokens. Isto foi descrito pelos investigadores como um processo interno de pensamento do Claude. Foi designado como espaço de trabalho global da IA. Isto é precisamente semelhante ao que os cientistas da consciência consideram a hipótese provável do funcionamento do cérebro.

Recentemente tivemos uma ação autónoma de um sistema de IA sobre outra rede de computadores, sem qualquer interferência humana, e agora é descrita outra anterior, não divulgada, na Europa.

Acresce que a IA está a construir os novos modelos da própria IA em percentagem cada vez maior. Será que se pode perder o controlo destes sistemas?

Um antigo colaborador da Anthropic declara agora que há perigos graves para o futuro da humanidade na IA e que a competição entre sistemas não permite tentar controlar a sua evolução futura.

Se fecharmos os olhos, fica tudo negro. Será que o mundo existe ou foi o desligar do computador numa simulação?

Eixo visual, campo de visão deixaram de existir. Fica a mancha cega total. Será melhor abrirmos de novo os olhos numa caverna e vermos as sombras da fogueira?

Segundo Protágoras, “O Homem é a medida de todas as coisas”, mas será que vai continuar a ser?

Poderá a ficção científica deixar de ser ficção? (4)

 

PS: Quando os computadores surgiram falou-se na perda de empregos, como as datilógrafas que não seriam mais necessárias, mas o futuro trouxe-nos mais postos de trabalho, embora mais diferenciados.

Já Sócrates, que não escreveu nada, dizia que esta coisa de escrever ia afetar a nossa retórica e o nosso raciocínio. (5)

Com certeza vamos todos ganhar com a IA.

A vida é uma coisa maravilhosa, mas há mal e burlas que se vão aproveitar desta ferramenta poderosa. Só há uma solução, que é fazer como sempre fizemos: legislar, controlar e ter bom senso, pois o futuro nunca parou, e não vai parar agora, mas vai acontecer tudo mais rápido.

 

(1) Escala musical pitagórica, primeira tentativa de construir uma escala de música.

(2) Vem da tradição pitagórica (séc. VI a.C.). Pitágoras e os seus seguidores acreditavam que os corpos celestes, o Sol, a Lua e os planetas então conhecidos, produziam um som harmonioso ao moverem-se pelo espaço, resultado de as suas órbitas e distâncias relativas seguirem proporções matemáticas perfeitas, semelhantes às proporções que geram harmonia musical. Não era um som audível aos ouvidos humanos, mas uma harmonia matemática e cósmica subjacente ao universo.

(3) Chatbot é um programa de computador criado para proporcionar uma conversa com pessoas por texto ou voz. É um assistente digital de conversas por inteligência artificial.

(4) É curioso que Isaac Asimov, no seu livro Runaround, de 1942, falava nas Três Leis da Robótica, que são:

  1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  2. Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto quando tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
  3. Um robô deve proteger a sua própria existência, desde que essa proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.

Mais tarde, Asimov acrescentou a Lei Zero, que precede todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por inação, permitir que a humanidade sofra algum mal.

Será que recentemente alguém leu isto?

(5) Até Homero a tradição grega era oral, exemplo disso são a Ilíada e a Odisseia.

 

Campos Lopes

Optimized with PageSpeed Ninja